Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação fala com exclusividade para a Diocese de Jundiaí

Jussane Cristina 9 de agosto de 2017 0

Divulgamos a seguir a entrevista com Dom Darci José Nicioli, CSsR,  Arcebispo de Diamantina (MG) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação, gentilmente concedida  para a equipe do Setor de Comunicação da Diocese de Jundiaí, via email, por ocasião da edição 482 do jornal O Verbo que tratou do tema “A presença dos cristãos nas Redes Sociais”.

 O Verbo: Tendo em vista a difusão que a internet ganhou nos últimos tempos, a Igreja Católica vive a necessidade da inserção eficaz no mundo digital. Como os meios de comunicação estão organizados no Brasil?

Dom Darci: Os principais meios de comunicação, no Brasil, estão nas mãos de poucos, como se pode verificar num breve levantamento sem muito rigor científico. Menos de dez famílias detém os maiores conglomerados de comunicação que incluem TV, Rádio, jornais e grandes portais na internet. Essa constatação, por si só, já é uma provocação direta para as consciências que reconhecem na democracia um regime de maior justiça e na ampla manifestação da diversidade das opiniões um ambiente saudável para a construção de uma nação mais justa e fraterna.

A Igreja sempre chamou a atenção para a promoção da democratização dos meios de comunicação no Brasil. E tem feito isso incentivando o próprio exercício de participação das pessoas. No correr das últimas décadas, foram inúmeras as iniciativas da Igreja que reuniram profissionais, professores e interessados no tema da questão dos meios de comunicação em seminários, congressos, encontros regionais e nacionais. Além disso, a CNBB sempre esteve presente nos grandes debates sobre o tema e os bispos procuram colaborar para que os meios de comunicação estejam acessíveis ao conjunto da sociedade e não somente a poucos grupos com maior poder de influência política e econômica. E mais: a Igreja tem insistido para que os meios de comunicação, neste país, atendam aos interesses dos mais pobres e abandonados.

Por parte da própria Igreja tem sido realizado um esforço enorme por parte das Dioceses, das Congregações Religiosas e de associações de leigos para adquirir e administrar meios de comunicação em várias regiões do País. Há muito sacrifício sendo feito para que a palavra missionária da Igreja permaneça viva e atraente nos tradicionais meios de comunicação.

A inserção no ambiente digital, que não se trata propriamente de meio de comunicação, mas, de um mundo novo onde se apresenta, se vive e se compartilha conteúdo sem pagar tributos às velhas estruturas dos meios de comunicação do passado, tem sido um enorme desafio para a Igreja. O Diretório de Comunicação, aprovado pela CNBB em 2014, dedica um capítulo inteiro à questão do uso dessas novas mídias pela Igreja e apresenta grandes desafios que temos procurado enfrentar e vencer em nossas comunidades.

O Verbo: Quais os ganhos obtidos até os dias atuais? E quais são os desafios?

Dom Darci:  O que foi feito até agora merece grande reconhecimento. Os últimos pontificados têm chamado a atenção de todos sobre a importância de conhecer e usar bem o ambiente digital para o relacionamento saudável entre as pessoas e, sobretudo, para se promover o anúncio do Evangelho, missão primordial da Igreja. Paulo VI promulgou o Decreto Conciliar que sinalizou o início de um processo de maior engajamento da Igreja na realidade da comunicação. João Paulo II, além de ter sido pessoalmente um exemplo completo de como usar as mídias para que a mensagem de Cristo seja conhecida, também escreveu memoráveis mensagens sobre o tema, inclusive enfrentando, sem temor, a chegada da revolução tecnológica representada pelo advento da Internet. Papa Bento XVI seguiu na mesma linha de entusiasmo e hoje nos encontramos, de novo, diante de um inspirador exemplo de comunicador: Papa Francisco.

Por parte do episcopado, do clero, dos religiosos e dos leigos no Brasil, os ganhos também são significativos. Além de toda a parte de reflexões que resultaram em documentos para ajudar as comunidades a aprofundarem o tema da comunicação e da tecnologia que a movimenta, a Igreja também tem dado testemunho de grande interesse e engajamento no conjunto da sociedade participando de programas e de publicações que trazem a questão da comunicação para o concreto da realidade e suas consequências práticas. Desde a estrutura nacional da CNBB com seus 18 regionais espalhados pelo Brasil até a mais simples e remota comunidade católica, desde 1967, ao menos uma vez por ano, por ocasião do Dia Mundial das Comunicações, tem se debruçado sobre o tema para avaliar o caminho de engajamento contínuo da Igreja nesse campo e para prospectar novas iniciativas.

O maior desafio, na minha opinião, encontra-se na necessidade urgente de mudança de mentalidade. Todos nós bispos, padres, religiosos, leigos precisamos entender que entramos em outra época e que a comunicação agora pede que nos desapeguemos de velhas práticas e nos abramos ao novo que precisa ser aprendido, assimilado. Desse desafio brotam todos os outros. Hoje não se pode mais negar, por exemplo, que a tecnologia da comunicação invadiu nosso cotidiano em família, no trabalho e no ambiente eclesial. Os aparelhos digitais consomem parte do nosso precioso tempo e não podemos perder a ocasião de usar deles para anunciar a necessidade da conversão para o acolhimento do Reino de Deus.

 O Verbo: Como o uso das redes sociais tem contribuído para a evangelização/formação dos leigos católicos?

Dom Darci: As redes sociais, na verdade, nós conhecemos de longa data. Sempre que alguém mobiliza grupos para trocar ideias forma uma rede social. O que ocorreu de novo é que agora pode-se fazer isso de um modo mais fácil, rápido, eficiente e controlado por meio de plataformas digitais. Tudo ficou mais acessível. E isso significa muito para nós que somos discípulos missionários de Jesus Cristo. O tempo e o trabalho que tínhamos para formar redes sociais no passado foram completamente transformados pela revolução digital. Basta um clique e se entra numa rede planetária onde se pode encontrar milhões de pessoas.

O uso das redes sociais digitais pode ser de grande valor para a perene tarefa de viver e anunciar o Evangelho. Em primeiro lugar, esse uso deve continuar respeitando as antigas regras de convivência fraterna que sempre tivemos no contato com os irmãos, antes da chegada dos celulares e dos sites de relacionamentos. Não é porque alguém pode se esconder atrás de um avatar que está liberada a exigência de respeito e seriedade com as pessoas, com a Igreja e com a Palavra e com Deus. Numa rede social digital se faz o mesmo que se faz numa rede social que não se apoia numa plataforma de internet, isto é, procura-se conhecer as pessoas, fala-se das coisas com sinceridade e anuncia, com entusiasmo, o quanto é bom amar e viver no aconchego da família formada por todos os filhos e filhas de Deus neste mundo.

No campo da formação dos católicos, as redes sociais digitais podem ser grandes aliadas para se chegar às verdadeiras fontes da fé que não mudaram por causa da revolução da tecnologia da comunicação, continuam sendo as mesmas: a Tradição, a Palavra de Deus e o Magistério da Igreja. Atentos a essa base, pode-se realizar uma verdadeira missão, de forma quase planetária, levando as pessoas a conhecer e amar Jesus seguindo seu Evangelho de Amor.

O Verbo: O Papa Francisco já algum tempo alertou para os aspectos problemáticos dos meios de comunicação como a velocidade com que chegam as informações que muitas vezes acabam por não permitir a capacidade de reflexão e de julgamento. Nesses casos, como deve ser a postura do cristão católico nas redes sociais?

Dom Darci: É preciso que tenhamos a humildade de reconhecer que não sabemos de tudo. Eu confesso, por exemplo, que não consigo identificar, de imediato, a ocasião e o contexto nos quais o Papa Francisco tenha feito esse alerta, bastante pertinente, sobre meios de comunicação. Papa Francisco tem feito mesmo tantas e importantes advertências sobre formas artificiais de assumir a vida cristã. E, no que se refere ao uso de redes sociais e na imersão no chamado ambiente digital, entendo que esses casos em que as coisas são ditas e divulgadas de forma açodada tornam-se ocasiões de grandes riscos. Do mesmo modo, aceitar tudo o que aparece em rede social sem a devida reflexão e aprofundamento é um perigo pois pode levar a conclusões ambíguas e a inverdades.

Fala-se muito, entre os estudiosos da comunicação, que estamos atravessando um período em que ganha muito campo a chamada pós-verdade, isto é, quando os fatos objetivos tem menos importância em moldar a opinião das pessoas do que os apelos à emoção e crenças. Não podemos deixar que a verdade seja ferida por nenhuma artimanha. É preciso sempre se perguntar se o que está dito é verdadeiro e procede, de fato, de onde está dito. Até mesmo a palavra do Papa Francisco tem sido usada nessa nova onda. Muitas vezes se encontra frases, discursos nas redes sociais atribuídas ao Papa que não são legítimas.

É preciso, portanto, continuar atento às fontes e àquilo que realmente acontece e não ceder a tentação de compartilhar, nas redes sociais, conteúdo porque parece bonito e inspirador. Não estamos dispensados de conferir, refletir.

O Verbo: No próximo mês de agosto, o Regional Sul 4 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) por meio da Diocese de Joinville (SC), acolherá o 10º Mutirão Brasileiro de Comunicação (Muticom), com o tema “Educar para Comunicação”, o que o senhor espera desse encontro?

 Dom Darci: Espero o que meus Irmãos no episcopado e a toda a Igreja no Brasil espera: que seja um encontro abençoado. Que as pessoas estejam dispostas a dar suas contribuições para as reflexões sobre a comunicação e resgatem o sentido original desse encontro: trabalhar juntos! Esta, aliás, tem sido a bandeira que tenho levantado desde o primeiro momento em que cumpro a missão que me confiaram ao colocar na presidência da Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação da CNBB. Tenho tentado levar a todos os grupos com os quais me encontro a mensagem de que é fundamental assumirmos que somos um corpo evangelizador e que precisamos crescer na capacidade de conviver e trabalhar juntos.

Mutirão é um jeito de que as famílias mais pobres encontram para fazer grandes obras: convidam os amigos, dividem as tarefas, trabalham gratuitamente e, depois, celebram com a refeição em comum. Dá gosto ver um Mutirão bem realizado! Esperamos que em Joinville se concretize essa ideia bonita do Mutirão. O tema da educação para a comunicação tem o grande potencial de envolver a todos que lá forem a se dedicar a uma reflexão compartilhada.

Teremos a presença de Monsenhor Dario Viganò que vai nos trazer uma palavra bem oportuna sobre o modo como a Santa Sé está enfrentando os desafios desse nosso tempo tão marcado pelos desafios da tecnologia, mas que carece de humanidade, de um olhar, de um gesto de amor. Ele vai, certamente, nos ajudar a perceber com maior clareza as diretrizes do Santo Padre para esse campo de atuação que é a comunicação na Igreja. Teremos também a presença do Silvonei José, um paranaense que coordena a seção de português da Secretaria de Comunicação do Vaticano. Creio que serão duas presenças muito importantes. Além deles, temos professores e estudiosos de grande importância em nossa caminhada e vai ser uma beleza conviver e aprender com eles em Santa Catarina.

O Verbo: E quanto ao Sínodo de 2018 que terá como tema os jovens, a fé e o discernimento vocacional, o que podemos esperar? Quais são as suas expectativas?

Dom Darci: Tenho certeza que será um grande Sínodo. Espero muito do trabalho dos Padres Sinodais. Os jovens, a fé e o discernimento vocacional formam um tripé de temas que se conectam e que precisam ser aprofundados a partir de novos desafios que o mundo de hoje nos apresenta. Para nós, comunicadores, este Sínodo terá uma importância fundamental. Eu peço a todos que acompanhem, com dedicação, todo o processo: a preparação, a realização e o tempo posterior ao Sínodo. Precisamos nos informar sobre os principais assuntos tratados, os desafios enfrentados e as orientações que, certamente, serão dadas pelo Santo Padre no final do Sínodo.

Já podemos celebrar, como agentes de comunicação na Igreja, a forma como a Secretaria Geral do Sínodo escolheu para fortalecer a preparação: abriu canais digitais com sites em diversas línguas e pediu às conferências episcopais que abrissem seus portais para receber a colaboração dos jovens. Este foi um gesto muito inspirador. Precisamos apostar mais na participação das pessoas usando as plataformas digitais.

Espero também que todos os agentes de Pascom estejam conectados com os temas do Sínodo e ajudem, especialmente a juventude brasileira, a acompanharem tanto na oração pelos Padres Sinodais como também pela divulgação dos trabalhos do Sínodo. Vamos fazer isso juntos, com muita abertura e entusiasmo convidando outros agentes para entrarem nessa bela missão de divulgar o esforço da Igreja para responder aos apelos da juventude no mundo inteiro.

O Verbo: Deixe-nos uma palavra final.

Dom Darci: Agradeço a gentileza de todos os participantes do Setor de Comunicação da Diocese de Jundiaí que me convidaram para essa conversa mesmo sabendo que como bispo missionário no interior de Minas Gerais, na minha querida Diamantina, não tenho conseguido encontrar o tempo que preciso para atender a tempo e hora as solicitações que recebo.

Envio um abraço fraterno ao meu caro Dom Vicente Costa e desejo que todos os agentes da Pastoral da Diocese de Jundiaí estejam em estreita conexão com as orientações do seu bispo para que o nosso trabalho possa expressar a comunhão que nos ensina o Evangelho. Entendam-se, sempre, com seus párocos e não se esqueçam: a Pascom está a serviço de todas as pastorais da Igreja!

Peço que olhem para Jesus, todos os dias. Notem como o Senhor quis sempre chegar ao coração das pessoas para transformar a vida delas. Hoje somos chamados a continuar essa missão contando com a força da presença de Jesus Ressuscitado. Renovem-se no compromisso com o anúncio do Evangelho que deve ser anunciado a todos, especialmente aos mais esquecidos deste mundo! E, claro, não posso deixar de pedir que rezem por nós da Comissão de Comunicação da CNBB. Dom Devair Araújo, bispo Auxiliar de São Paulo e Dom Roque Sousa, Bispo Auxiliar do Rio estão comigo nesta missão. Contamos ainda com a ajuda de dois missionários padres, um da Canção Nova, padre Antônio Xavier e outro da Congregação Redentorista, padre Rafael Vieira.

 

 

 

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