Do conflito à comunhão

Guilherme Monico 9 de abril de 2017 0

Do conflito à comunhão
Comemoração conjunta católica-luterana da reforma

“Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti.
Que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21).

Prezados irmãos da Igreja de Deus que se faz presente na Diocese de Jundiaí:

Na história da Igreja Católica sempre houve divergências, conflitos, tensões; alguns muito sérios que causaram rupturas profundas no seio da Igreja. Nem sempre, nós, cristãos vivemos os apelos que o Senhor Jesus fez aos seus discípulos na Última Ceia: “Que todos sejam um” (Jo 17,21). A primeira grande ruptura aconteceu no Oriente, quando, em 1054, formalizou-se a separação entre Roma e Constantinopla devido a tensões políticas e teológicas. A segunda grande ruptura aconteceu no Ocidente, quando Martinho Lutero afixou, em 31 de outubro de 1517, as 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, na Alemanha. Este gesto de Lutero marcou o início da Reforma. Infelizmente, as primeiras reações às propostas de Lutero não foram nada amistosas. De ambas as partes, não houve possibilidade de acordo e o conflito foi se tornando cada vez mais tenso. Causas de natureza política, além de causas culturais, provenientes de uma nova visão de mundo, fruto do pensamento de separar a razão e a fé, contribuíram para acerbar o conflito. Nos anos seguintes, a Reforma ocasionou o surgimento de muitas igrejas cristãs evangélicas de diversas origens e convicções em matéria de doutrina e na prática da vida cristã, fenômeno este que vem aumentando muito, no Brasil, nos últimos anos.

Após séculos de incompreensão, posições fixas, preconceitos, profundas divergências, e até o recurso a meios violentos, o Espírito Santo suscitou na Igreja de Jesus Cristo um movimento ecumênico que procurou estabelecer o diálogo e o mútuo entendimento entre as Igrejas Cristãs.

A resposta da Igreja Católica ao movimento ecumênico iniciou-se no ano de 1960, quando São João XXIII criou o Secretariado para a Unidade dos Cristãos. Logo após, com a abertura da Igreja Católica aos novos sinais dos tempos e com a realização do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), as barreiras da separação foram sendo superadas, e admitindo, inclusive, a contribuição do testemunho dos irmãos separados na evangelização.

Dentro deste espírito ecumênico e com o objetivo de comemorar os 500 anos da Reforma Luterana, o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e a Federação Luterana Mundial publicaram um subsídio muito importante com o título: Do conflito à comunhão. Comemoração conjunta Católica-Luterana da Reforma em 2017 (Editora Sinodal e Edições CNBB). É a primeira tentativa histórica no âmbito ecumênico de descrever a história da Reforma conjuntamente; de analisar, com serenidade, realismo e espírito crítico os argumentos teológicos que estavam em jogo; de identificar a convergência alcançada entre ambas as partes e as diferenças ainda persistentes, como também apontar alguns caminhos na busca da comunhão. Neste sentido, reconhecendo que no Batismo somos todos irmãos em Cristo Jesus e que a unidade do Corpo de Cristo exige de todos nós oração e uma contínua conversão do coração, católicos e luteranos oferecem “cinco imperativos ecumênicos” na busca desta comunhão: (1) Reforçar o que existe de comum e não aquilo que nos divide; (2) O testemunho mútuo da fé; (3) O compromisso na busca da unidade visível; (4) Redescobrir a força do Evangelho de Jesus Cristo para o nosso tempo; (5) Testemunhar juntos a graça de Deus.

O Papa Francisco tem sempre incentivado o diálogo ecumênico com as Igrejas Cristãs. Particularmente, em relação aos luteranos, entre os dias 31 de outubro e 1º de novembro do ano passado, realizou uma viagem apostólica à Suécia por ocasião da comemoração comum luterano-católica da Reforma. Na oração ecumênica na Catedral Luterana de Lund, ele afirmou: “Também nós devemos olhar, com amor e honestidade, para o nosso passado e reconhecer o erro e pedir perdão, só Deus é o juiz”. E concluiu: “Nós, luteranos e católicos, rezamos juntos nesta Catedral e estamos conscientes de que, sem Deus, nada podemos fazer; pedimos o seu auxílio para sermos membros vivos unidos a Ele, sempre carecidos da sua graça para podermos levar, juntos, a sua Palavra ao mundo, que tem necessidade da sua ternura e misericórdia” (31 de outubro de 2016).

Queridos irmãos diocesanos: acreditemos na força do movimento ecumênico capaz de suscitar em nós um processo de purificação da memória do passado para superarmos as divisões ocorridas na história do Cristianismo. Também a Igreja Católica precisa reconhecer que necessita de uma contínua reforma e renovação, pois somos santos e pecadores. Desde a minha chegada à Diocese de Jundiaí procurei incentivar os encontros periódicos entre católicos e cristãos de outras Igrejas Cristãs. Continuando o maravilhoso trabalho assumido por Dom Amaury Castanho, o 3º Bispo Diocesano, que tanto incentivou o Movimento de Fraternidade de Igrejas Cristãs (MOFIC), eu e um grupo de Presbíteros e Diáconos Permanentes da nossa Igreja temos nos reunido periodicamente com pastores e pastoras do CONPAS (Conselho dos Pastores de Jundiaí). O primeiro encontro desse grupo aconteceu no dia 2 de agosto de 2013 e desde então nos reunimos, alternadamente, em locais de ambas as partes, para orar e refletir sobre a Palavra de Deus, buscando sempre a nossa comunhão. Padre Antônio Ferreira da Silva, Pároco da Paróquia Santa Luzia, em Campo Limpo Paulista, e o Pastor Isaías Rezende Guimarães, Presidente do CONPAS, têm ajudado muito a coordenar o grupo. Fruto dessa união, foi organizada a Capelania Cristã Hospitalar no Hospital de Caridade São Vicente de Paulo. Realizamos também celebrações cristãs, como: o Encontro de Oração na Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (18 de maio de 2015); a “Celebração pela Vida” com o gesto: “Abrace o São Vicente” (18 de dezembro de 2015), e mais recentemente, a Celebração Cristã pela Vida: “Abrace o Rio Tietê!”, em Pirapora do Bom Jesus (6 de junho de 2016). Para comemorar a Reforma Luterana, o grupo programou uma série de eventos (cf. pág. 6 desta edição do Jornal O Verbo).

O Decreto do Concílio sobre o Ecumenismo (“Unitatis Redintegratio” – “A reintegração da unidade”) termina afirmando que nesta busca de comunhão entre as Igrejas Cristãs, não devemos “por obstáculos aos caminhos da Providência; e que não se prejudiquem os futuros impulsos do Espírito Santo”. Pois a tarefa de “reconciliar todos os cristãos na unidade de uma só e única Igreja de Cristo excede as forças e a capacidade humana”. Por isso, coloquemos inteiramente a nossa esperança “na oração de Cristo pela Igreja, no amor do Pai para conosco e na virtude do Espírito Santo. ‘E a esperança não será confundida, pois o amor de Deus se derramou em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado’ (Rm 5,5)” (n. 24b). De fato, para quem crê no amor e na misericórdia de Deus, nada é impossível.

E a todos abençoo.

Dom Vicente Costa
Bispo Diocesano

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